O samba da minha terra: Aracy de Almeida

A última entrega de #OSMT antes das férias dedica um especial a uma das maiores intérpretes de samba, Aracy de Almeida.

A temporada 2021-2022 em Radio Universidad de Salamanca vai terminando e aqui a nossa última entrada com a coluna “O samba da minha terra”.

Em 20 de junho de 1988, no Rio de Janeiro, falecia uma das maiores vozes do samba carioca (ora, brasileiro!), a cantora Aracy de Almeida. Ela foi responsável por inesquecíveis regravações da obra do sambista Noel Rosa, mas no final da carreira atuou como jurada de programas de calouros, especialmente no “Show de Calouros”, conduzido pelo apresentador Silvio Santos.

Aracy Teles de Almeida, nasceu em 19 de agosto de 1914, no bairro do Encantando, no Méier, zona Norte do Rio de Janeiro, no seio de uma família protestante. Aracy de Almeida foi uma artista fundamental na época dos anos dourados da rádio, esse momento de consolidação do samba como expressão genuína de brasilidade. Há muitos trabalhos, artigos, escritos sobre ela. Aliás, ela mesma concedeu várias entrevistas ao longo da vida, portanto, é fácil encontrar fontes nas quais apoiar-nos para falar dessa figura tão importante. Para este programa, a referência principal é o documentário especial dedicado a ela, gravado em 1979, um programa da TV Cultura, no programa Vox Populi. A gravação consiste numa entrevista feita por anônimos e personalidades do mundo da Arte no Brasil.

Logo no início do documentário, o ator brasileiro Stephan Necerssian lhe pergunta se, apesar das críticas, das feridas da carreira, se tudo valeu a pena. Ela responde:

Para mim, valeu a pena, porque eu sou pioneira, tenho 43 anos [de carreira] e eu abri caminho para muita gente famosa que anda por aí. Agora com [isso] de justiça, eu acho que não, que nunca fui injustiçada e nem me considero uma pessoa injustiçada, meu filho, o negócio é que eu estou aí nas bocas.

Aracy de Almeida, documentário

Estas críticas, e recordamos aqui o trabalho da jornalista chilena Nayive Ananías, eram professadas, muitas das vezes, por outras mulheres, críticas musicais. Também, muitas vezes, as críticas eram sobre a personalidade dela, a aparência, a maneira franca de manifestar-se, mas também, em menos ocasiões, sobre a sua musicalidade. Na verdade, como demonstra a jornalista Nayive Ananías, essas críticas tinham muito mais a ver com um profundo rechaço ao samba, que traduzia, por sua vez, um posicionamento classista por parte dessas mulheres.

A carreira como intérprete começou no rádio. E mais: ela teve a sorte de ser “apadrinhada” por Noel Rosa. Sobre isso no documentário, Aracy de Almeida conta:

O Noel, eu conheci ele no primeiro dia que eu fui levada do Encantado pelo Custódio Mesquita, pelo grande compositor Custódio Mesquita, para cantar uma música no programa na Rádio Educadora do Brasil, no Rio de Janeiro, é isso aí. (...) no dia 17 de agosto de 1932. Eu fui fazer uma prova levada pelo Custódio Mesquita, e ali eu cantei uma marchinha da Carmen Miranda. Foi a ‘Bom dia, meu amor’. (...) Então, eu cantei essa música, que era do Joubert de Carvalho, essa marchinha (...) Quando acabei de cantar, o Noel me disse assim: “Olha eu gostei muito de você, como é o seu nome?”, “O meu nome é Aracy, eu moro lá no subúrbio e tal, no Encantado”, e ele disse para mim assim “Não canta essa música, não. Vamos comigo quando acabar o programa, eu te levo até a taberna da Glória” (...) vamos lá depois do programa, que eu vou te fazer uma música para você não cantar mais essa música. Gostei muito de você. Acho que você é muito pitoresca”.

Aracy de Almeida, documentário

Aracy de Almeida e Carmen Miranda foram os dois grandes nomes femininos do samba brasileiro nas décadas centrais do século XX. Era o momento de um esforço enorme por parte do Governo de Getúlio Vargas na construção de uma identidade brasileira, que buscava afirmar-se como popular. E nesse contexto, a popularização do rádio como veículo de comunicação permitiu a difusão de um estilo de música – o samba – entre outros segmentos da sociedade carioca, primeiro, e depois por todo o país.

E esse estado de coisas permaneceu até a década de 1960, mais ou menos. Depois disso, veio a bossa nova, entrando de cheio nos cenários, palcos e emissoras de rádio de todo o país. Começava também um momento chave para a indústria discográfica e, inclusive, uma nova forma de fazer música. Se antes víamos grandes intérpretes que davam voz às composições de escritores, agora os artistas compunham e gravavam suas próprias músicas.

As décadas de 1970 e 1980, inauguraram importantes mudanças no cenário musical carioca. Começavam as discotecas, com ritmos mais eletrônicos e, com eles, também uma nova forma de dançar. Sobre esse momento, Aracy de Almeida, muito lúcida, respondia no programa que esse movimento era natural, que a sucessão de expressões musicais era parte do caminho.

Também no meu tempo eu gostava do Bing Crosby, gostava do Carlos Gardel e Maurice Chevalier e outros bichos mais, não é, meu filho? É um negócio. Essa turma, que é jovem, está pensando que eles não vão passar por um período, que eu estou passando. Tudo acaba, meu filho. Essa vida é muito rápida, é um negócio passageiro. (...) O tempo passa, meu filho, ninguém fica jovem, nem criança, todo mundo envelhece ou entra pelo cano.

Aracy de Almeida, documentário

Já nos anos 1980, Aracy de Almeida deixava os microfones e a maneira que ela encontrou para se manter no mundo da música foi através dos programas de calouros na televisão, muito populares nesses anos. Entre esses programas, dois dominavam a audiência: Chacrinha e Silvio Santos.

No documentário, um dos entrevistadores lhe pergunta por que ela era tão dura com os cantores e cantoras que estavam começando. E no melhor estilo “Aracy de Almeida”, a resposta veio taxativa:

Bem o negócio é o seguinte: tem tanto cantor desafinado gravando e funcionando em show, em televisão, olha eu acho que 90% dos cantores brasileiros estão desafinando. Eu só escolho um calouro que realmente seja um negócio que preste, agora, não sendo, eu meto o cacete neles lá, da minha parte, eles não passam, tem que ser bom mesmo, não sendo bom, não passa.

Aracy de Almeida, documentário

Conhecida como “Dama da Central”, “Dama do Encantado”, “O samba em pessoa”, Aracy de Almeida encarnou como ninguém a forma do samba urbano e até uma certa malandragem, essa picardia que se define tão cariocamente. No documentário da TV Cultura, ela conta que aos 14 anos já vivia a boemia do subúrbio carioca. Daí que, tendo pais muito religiosos, tivera que sair de casa para poder cantar. Ao longo de mais de 4 décadas de carreira, gravou mais de 300 músicas. Por isso, também lhe chamavam de “repositório do samba brasileiro”.

No documentário, há um momento que Aracy de Almeida diz assim:

Eu cantava, o meu negócio era cantar, o meu negócio era arrumar uma grana. E para arrumar a grana, eu tinha que cantar alguma coisa. Eu tentei tudo, e o que deu certo foi cantar samba.

Aracy de Almeida, documentário

Ainda bem!

Boas férias e feliz verão.

Músicas no programa

A primeira música no programa é “São coisas nossas”, composição original de Noel Rosa, no disco Aracy de Almeida interpreta Noel Rosa, de 1971.

Depois, vem “Feitiço da vila”, na versão do disco Aracy de Almeida interpreta Noel Rosa, de 1971). Um clássico do samba carioca! Essa música é de 1934 e faz parte de um conjunto de músicas que traduzem uma disputa que Noel Rosa manteve com Wilson Batista. A polêmica entre eles girava em torno da apologia do sambista como malandro, coisa que Noel Rosa não concordava e para responder a provocação de Wilson Batista, escreveu:

“Malandro é palavra derrotista/Que só serve pra tirar/Todo valor do sambista”.

No ano seguinte, em 1934, Noel e Wilson Batista voltam a polemizar sobre temas de samba: Noel escreve “Feitiço da Vila”, uma canção que homenageia seu bairro, com versos como:

“Lá, em Vila Isabel/ Quem é bacharel /Não tem medo de bamba /São Paulo dá café/ Minas dá leite/ E a Vila Isabel dá samba”.

A terceira música é “Palpite infeliz” (disco Aracy de Almeida interpreta Noel Rosa, de 1971). Depois de escrever “Feitiço da Vila”, em resposta a Noel Rosa, Wilson Batista escreveu “Conversa fiada”, que diz assim:

“É conversa fiada dizerem que o samba na Vila tem feitiço / Eu fui ver para crer e não vi nada disso/ A Vila é tranquila, porém eu vos digo: cuidado!/ Antes de irem dormir deem duas voltas no cadeado/ Eu fui à Vila ver o arvoredo se mexer e conhecer o berço dos folgados”.

E Noel Rosa, claro, não deixou barato, e escreveu o samba antológico “Palpite infeliz”, que entre seus versos, diz:

“Quem é você que não sabe o que diz?/ Meu Deus do Céu, que palpite infeliz! / Salve Estácio, Salgueiro, Mangueira/ Oswaldo Cruz e Matriz /Que sempre souberam muito bem/ Que a Vila não quer abafar ninguém,/ Só quer mostrar que faz samba também”.

A última música do programa é “Conversa de botequim”, uma composição de Noel Rosa e Vadico, de 1935. Essa é uma de suas canções mais celebradas e que, mais tarde, seria regravada por um sem-fim de cantores brasileiros. A versão aqui disponível foi gravada na voz de Aracy de Almeida, no disco Aracy de Almeida interpreta Noel Rosa, de 1971. A música é uma espécie de crônica da cidade, desses pequenos hábitos, pequenos costumes que para a maioria de nós passam inadvertidos, mas para um artista, não. Entre seus versos, diz assim:

“Seu garçom faça o favor de me trazer depressa/ Uma boa média que não seja requentada/ Um pão bem quente com manteiga à beça/ Um guardanapo e um copo d’água bem gelada/ Feche a porta da direita com muito cuidado/ Que não estou disposto a ficar exposto ao sol/ Vá perguntar ao seu freguês do lado/ Qual foi o resultado do futebol

Referências:

Aracy de Almeira (2015, 19 de fev.). Wikipedia. A enciclopédia livre. Recuperado de [https://pt.wikipedia.org/wiki/Aracy_de_Almeida]. Consultado 20 de junho de 2022.

Aracy de Almeida (2022). Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira. Recuperado de [https://dicionariompb.com.br/artista/aracy-de-almeida/]. Consultado 20 de junho de 2022.

TV Cultura, programa Vox Populi. [Purarts Net] (20/06/2022). Documentário Espcial Aracy de Almeida. YouTube: Documentário Especial Aracy de Almeida – YouTube

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