BioBrasil: entrevista Monique Malcher

No Dia Internacional da Mulher, entrevistamos Monique Malcher, uma jovem escritora paraense vencedora do último Prêmio Jabuti, na categoria de contos.

Em 8 de março, celebramos o Dia Internacional da Mulher e, por isso, este programa tem conotação feminina. Entrevistamos Monique Malcher, vencedora do famoso Prêmio Jabuti de 2021 na categoria de contos, com a obra Flor de gume.

Para quem não sabe, o Prêmio Jabuti se concede desde 1958 pela Câmara Brasileira do Livro, e já foram contemplados nomes das letras brasileiras como Nélida Piñon, Lygia Fagundes Telles, Marina Colasanti, Ana Maria Machado, entre muitos outros nomes.

Nesse dia especial, tivemos a enorme satisfação de poder conversar com Monique Malcher, escritora, jornalista e artista plástica brasileira natural de Santarém, uma cidade a oeste no estado do Pará, ao norte do Brasil. Monique se apresenta a si mesma como uma eterna criança de rio, que teve desde a infância uma estreita relação com a palavra falada e escrita. A oralidade sempre foi importante em sua trajetória literária. De criança se lembra da avó materna contando histórias. Ela conta que se sentava no chão da casa da avó e ficava fascinada com o mundo imaginário que saía dos lábios daquela mulher, que não duvidava em usar adereços para ambientar seus relatos. Assim, Monique confessa que ela aprendeu a ouvir com a avó e que quando alguém nasce da palavra falada, florece depois na palavra escrita.

Neste ponto, destacamos uma importante reflexão da nossa entrevista: a primeira é que a literatura encontra diversas formas de ser e estar, de tal forma que não só é literatura a que se plasma no papel. E a segunda, é que ela sempre quis ser escritora: nunca desejou ser astronauta nem nada, mais além da magia da pluma e do papel. Talvez, podemos vê-la como uma astronauta da palabra…

Perguntamos a Monique Malcher sobre a obra premiada Flor de gume e que contasse (sem spoiler!!) das histórias que podemos encontrar no livro. A obra está escrita numa intensa prosa poética e composta por 37 contos que conversam entre si, nos quais a autora percorre as ruas e as águas do Pará, fazendo com que os leitores compartilhem das dores de meninas, mães e avós. Trata-se da experiência vital de três gerações de fortes mulheres que sofrem em suas carnes a violência doméstica, sexual e o abandono. Apesar de apresentá-lo como um livro de contos, em nenhum momento pretende etiquetar-se como um único gênero literário. A nossa entrevistada gosta de jogar com a palavra e ver até onde pode levá-la.

Monique Melcher afirma que sua inspiração vem de lugares e linguagens diferentes. Livros, filmes, teatro… mas também e, especialmente, das mulheres. Observa e tenta entender o que passa no coração e na mente das mulheres que conhece e com as que cruza na rua ou vê nos jornais. Tenta aproximar-se, aproximar-nos, da experiência de ser mulher, algo que não é universal, mas sim uma busca constante.

Avançando na entrevista, perguntamos que significado tem para ela vencer o Prêmio Jabuti e como esse prêmio repercutiu em sua carreira.

Monique Malcher confessa que nunca acreditou que seria possível conquistar esse prêmio e, mais ainda, nunca pensou que um prêmio poderia convertê-la no que é, uma mulher que gosta de escrever, criar, ir além das palavras com suas dúvidas e perguntas… Graças ao Jabuti, encontrou uma forma de ir longe, de encontrar mais leitores e isso é o mais importante, porque, no fundo, para ser escritora é preciso publicar uma obra e que alguém a leia. E saber que alguém está lendo e compartilhando das mesmas inquietações que ela, lhe fazem sentir um pouco menos sozinha no mundo.

Sendo hoje 8 de março, Dia Internacional da Mulher, pedimos a Monique Malcher sugestões de escritoras brasileiras que devemos conhecer. Monique dá três nomes que lhe acompanham em cada passo que dá.

A primeira é Paloma Franca Amorim, que além de escrever o prefácio de Flor de Gume, é uma grande autora que deveria ser conhecida por todos. Depois, duas grandes escritoras clássicas paraenses: Eneida de Moraes e Olga Savary. Como curiosidade, esta última, foi a primeira (e até que chegou Monique) e única mulher do estado do Pará em vencer um Prêmio Jabuti, há mais de 50 anos. A nossa protagonista confessa que desde que recebeu a nomeação ao prêmio teve sempre em mente a esta fantástica poetisa, falecida recentemente, em maio de 2020, a causa de complicações decorrentes de covid-19. Mesmo que Eneida de Moraes e Olga Savary já não estejam entre nós, Monique afirma que elas continuam muito vivas, porque sempre que alguém lê as suas obras, estas fantásticas mulheres continuam brilhando entre nós. Bonito pensamento, não é?

Para terminar e para quem tiver interesse, a sua obra está disponível em  Amazon e também diretamente com ela no perfil de Instagram: @moniquemalcher.

Agradecemos a Monique Melcher por sua amabilidade e disponibilidade para esta entrevista, uma enorme satisfação, e a quem desejamos uma longa e brilhante carreira.

Música no programa

Para fechar este especial de 8 de março, terminamos com uma voz feminina, sugestão da nossa entrevistada. É a música “Nunca vas a comprender”, de Rita Payés, curiosamente uma trombonista catalã, bem jovem e talentosa, que já tem 4 discos no mercado, o último “Como la piel”, lançado no ano passado.

Mais informações:

Três contos de Monique Malcher: http://ruidomanifesto.org/tres-contos-de-monique-malcher/

Mini bio

Monique Malcher é escritora e artista plástica. É natural de Santarém, terra a qual está muito ligada, atualmente reside em São Paulo. Pesquisa sobre quadrinhos elaborados por mulheres desde a graduação. Ela é mestre em Antropologia e doutoranda interdisciplinar de Ciências Humanas pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC, Brasil), é uma das coordenadoras do Club de Escritoras Paraenses e organizadora da coetânea Trama das Águas da editora Monomito, que reúne 57 escritoras paraenses.

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