Entrevista a Bruno Ayllón

Um dos maiores especialistas na Espanha sobre as relações entre o Brasil e a Espanha, fala sobre livros e autores para conhecer melhor a atualidade brasileira.

Entrevistamos a Bruno Ayllón Pino, doutor em Ciência Política pela Universidade Complutense de Madri (UCM). Na tese analisa as relações entre o Brasil e a Espanha entre 1979 e 2000, que foi publicada por Ediciones USAL. O autor fez o pós-doutorado na Universidade de São Paulo, aprofundando nos vínculos existentes entre a UE e o MERCOSUR. É também  membro do Grupo de Pesquisa BRASILHIS da Universidade de Salamanca e calaborou com o CEB em diversas atividades académicas, como seminários, cursos e publicações. Atualmente, é pesquisador associado ao Instituto Universitário de Desenvolvimento e Cooperação da UCM e consultor independente sobre o Brasil e cooperação internacional.

CEB: Você acaba de realizar uma importante doação de livros e revistas à biblioteca do CEB. De quantos exemplares estamos falando? De quais áreas temáticas?

Bruno Ayllón: Não saberia dizer exatamente quantos volumes estamos falando. Porém, calculo que entre 200 e 300 exemplares de diferentes áreas de conhecimento relacionadas com a minha área de pesquisa, especialmente política exterior do Brasil, sistema político brasileiro, história, direito, sociologia etc. De qualquer forma, se trata de um modesto acervo que reuni nos últimos 20 anos e, creio que será útil para os pesquisadores que queiram aproximar-se da realidade brasileira. E na minha opinião, o CEB/USAL é a instituição acadêmica e cultural idônea para alojar estas obras em sua biblioteca.

CEB: Quais livros você considera imprescindíveis para conhecer o Brasil? Quais seria o Top 10?

Bruno Ayllón: Esta pergunta é difícil. Sempre ao listar, nos arricamos excluir alguns clássicos e livros recentes. Falo da minha experiência e trajetória acadêmica muito tendenciosa por ser cientista político e internacionalista. Um historiador ou um filólogo certamente  fariam uma proposta diferente, e assim cada um dos pesquisadores sobre o Brasil. Mas, sim, me atrevo a sugerir algumas obras.

Entre os clássicos, digamos mais acadêmicos, Raízes do Brasil (Sérgio Buarque de Holanda), Casa-grande e Senzala (Gilberto Freyre), Os donos do poder. Formação do patronato político brasileiro (Raymundo Faoro), Navegantes, Bandeirantes e Diplomatas. Um ensaio sobre a formação das fronteiras do Brasil (Synesio Sampaio), Formação Econômica do Brasil (Celso Furtado), Formação do Brasil contemporâneo (Caio Prado Jr.) e O povo brasileiro: a formação do sentido do Brasil (Darcy Ribeiro). Mais recientemente, mas para mim uma das melhores obras coletivas em dois volumes sobre o Brasil é Viagem incompleta, a experiência brasileira, organizada pelo historiador Carlos Guilherme Mota. Acrescentaria outra obra, Brasil, uma biografia (Lilia M. Schwarz e Heloisa M. Starling).

No campo da literatura, fico com  Memórias póstumas de Brás Cubas (Machado de Assis), Os sertões (Euclides da Cunha), Macunaíma, o herói sem nenhum caráter (Mário de Andrade), Triste fim de Policarpo Quaresma (Lima Barreto), Brasil, pais de futuro (Stefan Zweig) e Agosto, de Rubem Fonseca.

Para entender o Brasil do século XXI, recomendo Depois do colonialismo mental. Um projeto para o Brasil (Roberto Mangabeira) e Os sentidos do Lulismo (André Singer). Como se pode ver são mais de 10 livros… e não são suficientes para compreender um país tão complexo que alberga tantas culturas e diversidades.

CEB: Também há autores espanhóis que se especializaram no Brasil, autênticos brasileñistas. Se queremos ler sobre Brasil em espanhol, por onde começamos?

Bruno Ayllón: Cada pergunta é mais complicada que a outra. Isso sim é um desafio porque não há tantos especialistas sobre o Brasil na Espanha. Os brasileñistas espanhóis estão muito dispersos, não estão agrupados em uma associação ou algo parecido, e seus âmbitos de pesquisa são muito diversos. Realmente, destacaria os livros publicados pela Universidade de Salamanca, especificamente no campo da História colonial do Brasil, pelo professor José Manuel Santos, e a coleção de teses de doutorado que a editora publicou, entre outras a minha sobre relações entre o Brasil e a Espanha, e a de Esther Gambi sobre a emigração castelhano-leonesa ao Brasil. Destaco também as publicações no campo do Direito e a Educação no Brasil de Ignacio Berdugo, diretor do CEB.

Ainda no campo histórico, um livro recente e que recomendo fortemente é Plaza del mundo. Historia informal de Brasil, de Carlos Sixirei, professor da Universidade de Vigo. No campo da literatura brasileira temos vários especialistas como Carmen Villarino, Ascensión Rivas e Antonio Maura, que atualmente é diretor do Instituto Cervantes en Río de Janeiro. Se falamos de História da Arte contamos com um especialista destacado do barroco no Brasil, o professor Carlos Brunetto da Universidade de la Laguna e em Antropologia, as obras de Rafael Díaz Maderuelo, da Universidade Complutense de Madri. Enfim, sem dúvida há muitos autores mais, mas me refiro aos que conheço mais diretamente.

CEB: Em quais âmbitos das Ciências sociais e humanas, você considera que o Brasil está mais desenvolvido?

Bruno Ayllón: Hoje em dia, acho que em quase todos. Os governos de Lula e Dilma Rousseff deram um grande impulso à pesquisa, a criação de Universidades e os programas de “amparo à pesquisa” como são conhecidos no Brasil. Graças a essas políticas de incentivo, o número de publicações dos centros de pesquisa em Ciências Sociais e humanas cresceu muito, ocupando os primeiros lugares nos rankings internacionais e, claro, na América Latina. Novamente, falo a partir da minha experiência e destaco o desenvolvimento da pesquisa em disciplinas como a Ciência Política, as Relações Internacionais e a Sociologia.

CEB: Depois de ler a sua entrevista e seguir seus conselhos, certamente, alguém planejará continuar ou aperfeiçoar seus estudos no Brasil. O sistema universitário brasileiro é muito complexo. Poderia comentar em linhas gerais o panorama dos centros de educação superior?

Bruno Ayllón: Existe uma relação direta entre a qualidade das Universidades brasileiras e os recursos disponíveis, que costumam coincidir com o âmbito geográfico do Sul e Sudeste do Brasil, com a liderança clara de São Paulo e Rio de Janeiro, mesmo que este último sofre uma crise econômica que vem afetando muito as universidades que dependem do governo do estado do Rio. Além da questão dos recursos, a minha recomendação seria que, em função do campo de estudo, as pessoas procurem universidades que tenham uma trajetória reconhecida ou destacada por sua capacidade de inovação. Refiro-me neste caso a universidades públicas, umas 300 no Brasil, ainda que também há bons exemplos de particulares, como as universidades pontifícias católicas ou a Mackenzie, em São Paulo. Uma boa referência é consultar a plataforma Sucupira, com a lista de programas de mestrado e doutorado que publica a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior do Brasil (CAPES). Nesta lista, é possível encontrar a avaliação dos programas e a sua qualidade.

Informação de contato

Para qualquer consulta a Bruno Ayllón, escreva ao e-mail brunespa@gmail.com

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